Cotidiano

‘Descaso é rotina’, relatam pacientes após suposta agressão de médico

Falta de estrutura motiva tensão em unidades  

Wendy Tonhati Publicado em 06/08/2016, às 17h06

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Falta de estrutura motiva tensão em unidades

Na dinâmica de atendimento da saúde pública, na qual a falta de estrutura muitas vezes é a principal rotina, outro problema entra em jogo: o descaso. É o que relatam pacientes das Unidades de Saúde de Campo Grande, locais onde sentem-se invisibilizados ou tratados com falta de respeito na maior parte das vezes. Os nomes das pessoas nessa matéria serão preservados, a pedido dos pacientes, que temem represálias.

Essa semana, no posto Silvia Regina, um médico clínico geral que trabalhava a tarde, foi acusado por pacientes de ter rasgado os exames de uma mulher, e a empurrado para a impedir a recuperação dos documentos da lixeira. Os denunciantes também afirmam que ela teria passado mal após o ocorrido. 

Nesta semana, uma cozinheira de 51 anos relatou que já foi destratada pelo mesmo médico e que sentiu-se 'desprezada' pelo profissional. “Ele destratou, me faltou com respeito, fiquei conversando com ele, explicando, nem deu a mínima pra mim, ele lá no computador, não gostei disso e falei pra ele. A gente vê tanta bagaceira, tanta correria atrás dessa tocha [Olimpíadas].Quantos milhões nessa tocha, que dava pra construir não sei quantos postos, pagar não sei quanto bons profissionais.”, contou.

Para ela, no entanto, o problema não é pontual e já ocorreu mais vezes na rotina de atendimentos.

“A maiosia deles são uns profissionais assim que… não sei se trabalham insatisfeitos, não sei o que é, mas é difícil pegar um profissional que te examine direito, ou converse direito com você, tem uns que nem olham pra gente. Se você falar pra ele: 'Dá pra você olhar pra mim e me explicar? Não vão nem olhar”, contou.

Além dos médicos, as pessoas também afirmam que enfermeiros ou atendentes das unidades de saúde da capital destratam pacientes, situação que, muitas vezes, motiva discussões.

“São grosseiros, não sabem conversar. Os enfermeiros também são grossos. A gente pergunta as coisas e respondem com mal gosto, com má vontade. Falam que se quisesse atendimento melhor é pra ir para o particular. Eles são grossos para conversar e para atender”, contou uma dona de casa, mãe de três filhos, entre eles uma bebê de colo. Ela procurou atendimento na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Coronel Antonino na tarde desta quinta para a criança.

A dona de casa também relatou que já encontrou médicos dormindo, entre plantões, o que foi declarado como justificativa para não atender. “As vezes estão dormindo e não querem atender, sempre colocam a culpa na emergência e não é emergência”, explicou. “Com certeza falta muita sensibilidade no atendimento".

Falta de estrutura motiva tensão

Ainda assim, os pacientes analisam que a falta de estrutura pode motivar o cansaço, estresse ou falta de motivação no atendimento. O número escasso de profissionais, de remédios e a própria condição física dos postos, de acordo com as pessoas que utilizam o serviço do SUS (Serviço Único de Saúde), motivam a relação, muitas vezes marcada por tensão, entre pacientes e profissionais da saúde.

É o que pensa o cabeleireiro e esteticista de 32 anos. Ele procurou a UPA Coronel Antonino durante a tarde de quinta-feira. Apesar do local estar vazio, ele relatou uma espera de cerca de 1h30. “Todas as vezes que vim demorou. Pergunto para as recepcionistas e são grossas, fingem que não ouviram”.

"Entendo que eles fazem o que podem também. Não tem estrutura nenhuma pra atender, não tem remédios. Eu vejo que, tecnicamente, o maior problema é falta de estrutura”, refletiu.

O cabeleireiro mora no bairro Moreninhas e reclama da falta de médicos na UPA do bairro, já que ele precisa deslocar-se até um bairro distante para ser atendido. Segundo foi informado nesta quinta, cinco médicos atuavam na UPA Coronel Antonino. Na UPA Moreninhas de acordo com ele, no entanto, não há nenhum.

“O que não entendo é ter cinco médicos aqui e nenhuma na UPA Moreninhas”, questionou.

O que diz a Sesau

A Sesau (Secretaria municipal de saúde pública) explica que, em relação ao caso do médico que teria empurrado a paciente no posto Silvia Regina, a secretaria irá abrir uma sindicância, para ouvir a vítima, as testemunhas e os médicos, e que o profissional pode ser penalizado de acordo com o Estatuto do Servidor Municipal.

“Em relação a esse médico não sabemos exatamente o que ocorreu no momento com ele”, informou a Sesau.

A secretaria também orienta que, qualquer pessoa que sentir-se desrespeitada deve procurar o órgão municipal para que o caso seja investigado. “É acionar a secretaria. Iremos chamar o médico aqui, no caso de um destempero, se tiver algum problema de saúde ou pessoal, damos a opção de afastar. Tudo que acontece em termos de falta de atendimento, ocorrências extra lógicas, a secretaria sempre abre uma sindicância”.

Jornal Midiamax