Mais discretos, homens admitem que também sofrem assédio em ônibus lotados

Maioria dos passageiros abusados não reclama por vergonha
| 20/07/2015
- 20:58
Mais discretos, homens admitem que também sofrem assédio em ônibus lotados

Maioria dos passageiros abusados não reclama por vergonha

Ônibus lotados e passageiros espremidos. É geralmente nessas circunstâncias que ocorrem os assédios sexuais. A situação constrangedora nem sempre é denunciada e por esta razão não há estatísticas que representam a frequência com que esses abusos acontecem, no entanto, os relatos levam a crer que o fato ocorre com certa constância e diferente do que muitos imaginam, nem sempre as vítimas são mulheres. Em Campo Grande, eles admitem: “também somos assediados”.

A forma como o assédio começa é relativa. Um olhar diferente, uma aproximação, cantadas e até ‘mão boba’, fazem parte dos relatos das vítimas. Assim como acontece com muitas mulheres, os homens que sofrem assédio dentro do transporte coletivo se sentem constrangidos e muitos não denunciam o fato por vergonha e receio de serem discriminados.

O pintor Antônio Nunes, de 32 anos, admite já ter sido assediado, no entanto, não denunciou o fato ao motorista. “É muito constrangedor falar, mas isso acontece e o pior é que não tem como um homem falar que está sendo assediado por uma mulher. Ninguém vai acreditar, além disso, vão achar estranho reclamar”, afirma.

Adriano da Silva Pimentel, de 31 anos, também passou por situação semelhante. “Essas coisas acontecem quando o ônibus está lotado porque assim quase ninguém percebe. Uma vez estava em pé e uma mulher começou a me apalpar. Fiquei muito envergonhado. Tentei me esquivar e ela só parou quando consegui ir para a frente da porta. Eu fiquei sem graça porque outras pessoas também viram”, relata.

O autônomo, Mailton Lima, de 23 anos, diz que foi assediado por mulheres e homens. “As mulheres geralmente são as mais coroas. Pedem uma informação, se aproximam e ficam cantando a gente, mas o pior é que somos assediados por outros homens também. Um dia um tentou passar a mão em mim, empurrei a mão dele e ele disse que foi sem querer. Isso é estranho e muito chato e eu não teria coragem de avisar o motorista porque é vergonhoso”, justifica.

O estudante Gabriel Adão, de 18 anos, nunca foi assediado, mas diz que reagiria conforme a situação. “Se for uma mulher, tudo bem, eu nem ligaria, mas se fosse um homem eu partiria para a ignorância”, garante.  Já o repositor Leandro da Silva Mendes, de 28 anos, ressalta que o respeito é fundamental. “Isso tem de existir independente de quem seja, mas se é uma mulher assediando, o homem não tem muita reação. Já quando é outro homem assediando, já partimos para a ignorância”, enfatiza.

O segurança Jader Wilson Duarte, de 34 anos, foi assediado por um homem quando voltava do trabalho. Ele estava acompanhado da esposa, que tentou amenizar a situação, no entanto, ele avisou ao motorista e exigiu que o caso fosse denunciado à polícia. “Fomos para a delegacia, lá descobri que ele estava evadido do presídio. Esse cara teve muita sorte de eu não estar armado”, observa.

Por outro lado, Silvana Gomes Loureiro, de 44 anos, admite que aconselhou o marido a não denunciar o fato. “Achei muito estranho. Fique com vergonha e medo, por isso disse para ele não fazer nada”, explica.

Dados da Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito) revelam que 250 mil passageiros utilizam diariamente o transporte coletivo de Campo Grande. Deste total, 60 mil são estudantes. Apesar da grande demanda não há fiscalização dentro dos ônibus e as medidas de punição também necessitam de melhorais.  

Em abril 2014 um projeto de lei de autoria do deputado federal, Romário (PSB-RJ), de número 7372/14, foi apresentado à Câmara de Deputados para tornar crime o ato de constranger alguém por meio de contato físico com fim libidinoso, no entanto, em janeiro deste ano o projeto foi arquivado.

Em Mato Grosso Sul, um projeto de lei apresentado no último mês, na Assembleia Legislativa, dispõe medidas de prevenção e combate aos abusos dentro dos coletivos. A proposta prevê que as empresas deverão adotar ações afirmativas, educativas e preventivas ao abuso sexual e violência contra a mulher, no entanto, não há nada que especifique os casos de assédio sexual contra homens.

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