País chega a 10 milhões de infectados por covid; velocidade de contaminação dobra

Às vésperas de completar um ano do primeiro caso de covid-19, o Brasil atingiu nesta quinta-feira, 18, a marca de 10 milhões de infectados pelo vírus. O número está agora em 10.028 644 casos. A velocidade de propagação da doença seguiu a linha do crescimento anunciada pelos pesquisadores. Foram oito meses para atingir 5 milhões […]
| 19/02/2021
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País chega a 10 milhões de infectados por covid; velocidade de contaminação dobra
Foto: Reprodução. - Foto: Reprodução.
Às vésperas de completar um ano do primeiro caso de covid-19, o Brasil atingiu nesta quinta-feira, 18, a marca de 10 milhões de infectados pelo vírus. O número está agora em 10.028 644 casos. A velocidade de propagação da doença seguiu a linha do crescimento anunciada pelos pesquisadores. Foram oito meses para atingir 5 milhões de casos e quase metade desse tempo para que o número dobrasse. Mesmo com a esperança da vacina, especialistas ouvidos pelo Estadão avaliam que o País ainda vai enfrentar desafios para antes da desaceleração de casos. O Brasil é o terceiro país do mundo a atingir a marca, atrás dos Estados Unidos e da Índia.

O primeiro milhão de infectados no Brasil foi alcançado em junho do ano passado, quando cientistas de várias partes do mundo se debruçavam em estudos para chegar a um imunizante que freasse o avanço do vírus. As informações sobre a importância do uso de máscaras, distanciamento social e medidas de higiene, como lavar as mãos ou usar álcool em gel, já tinham sido amplamente divulgadas, mas o País entrou em uma escalada de casos, que se refletiram em um número alto de mortes.

“Seria tudo diferente. Mas a gente vem, desde o começo, seguindo uma série de desobediências a medidas de restrição e isso acaba nos levando para o que estamos vivendo hoje. Quanto mais a gente vê pessoas falando que têm o direito a circular e não usar máscara, temos, em termos de biologia, a formação de novas mutações e, com essas variantes, a gente vai acabar sendo pego por algo que não tinha sido programado. No ano passado, quando começou a fazer quarentena até se chegar a uma vacina, era pela possibilidade de atender casos que viessem a surgir, achatar a curva e manter estabilidade genética no vírus para que ele não tivesse mudanças bruscas demais. As pessoas cansaram da , mas ela não se cansou da gente”, avalia Benilton de Sá Carvalho, professor do Departamento de Estatística e coordenador da frente de epidemiologia da força-tarefa Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) contra a covid-19.

Carvalho diz que tentar estimar como a propagação da doença vai caminhar no Brasil não é tarefa impossível, mas desafiadora, tendo em vista a quantidade de variáveis que precisariam ser levadas em consideração. “Estamos falando daquela fase de crescimento exponencial. O que acaba acontecendo com esse comportamento numérico é que, se hoje teve um caso, amanhã tem dois, depois, quatro. Nessa velocidade, chega a um ponto que acelera demais”, afirma.

“No nosso caso, é mais complicado (estimar) pela dificuldade de acesso à informação, seja de vigilância, como os dias de sintomas, seja pelas informações de testagem e vacinação, todas as variáveis são importantes para mensurar” diz Sá Carvalho. “A briga pelo auxílio emergencial é outra questão. A ausência vai fazer com que as pessoas circulem mais, trazendo novas variantes ”

No Brasil, já há registro de circulação da variante britânica e, no Amazonas, também surgiu outra variante, a P1, que já foi detectada em outros Estados, como Rio, Ceará e Santa Catarina. São Paulo já detectou casos das duas cepas.

Vacinação

Outro ponto preocupante é a imunização da população, que tem sido feita com lentidão por causa da escassez de doses. Até esta quarta-feira, 17, 5,4 milhões de pessoas tinham sido imunizadas, segundo balanço do Ministério da Saúde.

“Por causa da baixa velocidade da vacinação, a gente não deve ver esses efeitos tão cedo ou tão rápido quanto Israel. Temos cerca de 3% das pessoas vacinadas no Brasil. Não estou positivo de que teremos efeito depois de julho e vai ser complicado porque, até o segundo semestre, vamos passar pelo inverno e número de casos respiratórios, não só covid, aumentam em maio ou junho por padrão.”

Em Israel, mais de 40% dos 9 milhões de habitantes já receberam a vacina contra a covid-19. Quase dois meses após o início da campanha de imunização, os resultados já estão aparecendo e o País já contabiliza queda no número de pacientes em estado grave (38%), das mortes entre a população com mais de 60 anos (40%), de idosos hospitalizados (58%) e internações em geral (44%) em relação a janeiro.

Nos Estados Unidos, que também teve uma explosão de casos, o número de novos casos apresentou queda de 39% nas duas últimas semanas, puxada pela vacinação em massa.

“A vacinação está lenta porque a demanda por vacinas está extremamente alta e não temos doses suficientes. A gente recebeu oferta de 70 milhões de doses da Pfizer, que foi deixada passar. Teve um erro brutal em logística e de colocar o investimento em algo que a ciência fala que não tem eficiência”, diz Carvalho, referindo-se ao “tratamento precoce”, indicado inclusive pelo presidente Jair Bolsonaro, feito com medicamentos que estudos já comprovaram que não são eficazes contra o vírus.

Isolamento com estratégias é eficaz mesmo com novas variantes

Quando a pandemia teve início, o distanciamento social logo foi apontado como uma estratégia para conter a disseminação do vírus O Brasil não experimentou o lockdown, mas assistiu ao movimentos de abertura e fechamento de estabelecimentos nos países europeus. O “fique em casa” foi adotado por uns e criticado por outros ao longo do ano passado. No entanto, o isolamento social é uma ferramenta importante para evitar a propagação do vírus, inclusive as novas variantes. Só que precisa ser pensado de forma estratégica, de acordo com Airton Deppman, pesquisador e professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP).

Ele conduziu um estudo no ano passado que apontou o modelo de propagação do vírus. Em vez de usar o padrão SIR, mais usado para descrever a evolução de uma pandemia no tempo e que considera pessoas suscetíveis, infectadas e removidas (por morte ou vacinação), foi utilizado um modelo chamado fractal, que avaliou a disseminação por meio de grupos.

“Esse modelo começou com uma análise dos dados da epidemia em março e abril do ano passado, coletando dados em diferentes regiões do mundo, como China, , Estados Unidos e no Estado de São Paulo. Vimos que a melhor forma de analisar não era através do SIR, que é o mais antigo e tradicional. No SIR, se tem um infectado, ele tem a probabilidade de infectar qualquer um, mas sabemos que uma pessoa em São Paulo tem uma probabilidade mínima de contaminar outra que está em Manaus. É difícil usá-lo para explicar a epidemia em uma população grande. Nosso modelo considera que um indivíduo vai infectar um grupo pequeno e esses indivíduos vão contaminar outros grupos que têm contato com outros grupos de pessoas.”

A partir desses resultados, segundo ele, é possível desenhar modelos mais eficazes para conter o vírus. “O processo de contaminação depende do número de contatos e isso é mais importante do que diminuir a eficiência do vírus, mesmo para as novas variantes. Esse modelo oferece oportunidades para avaliar estratégias mais inteligentes de isolamento social, porque, se for imposto um isolamento muito geral e prolongado, as pessoas não conseguem seguir, como a gente viu no carnaval e no fim do ano do ano passado. O que a gente aprendeu é que a população, de modo geral, não consegue isolamento rigoroso e que a contaminação é, em grande parte, regional.”

Com o monitoramento das bolhas, testagem e isolamento em pontos que realmente precisam, além da vacinação, a tendência é de que as infecções caiam.

“Minha impressão é de que a população vai se adequando com base nas informações que o governo transmite. Com um modelo matemático, é possível desenhar formas de restrição de mobilidade que sejam mais eficientes para evitar o espalhamento do vírus e sem prejudicar um número muito grande de pessoas, observando onde precisa de distanciamento mais rigoroso, como a bolha se alastra e em que região precisa fazer mais testes para ver se o isolamento está sendo efetivo”, sugere Deppman.

‘Pensei que meu organismo ia reagir mais rápido’, diz professora que foi internada

A professora de educação infantil Amanda Vello do Paraizo, de 41 anos, espera sair do hospital nesta sexta-feira, 19. Há 15 dias, ela apresentou os primeiros sintomas da covid-19 e, desde o dia 12, está internada. Ela teve febre, cansaço, prostração, enjoo e vômitos. Depois do diagnóstico, ficou em casa, mas precisou de atendimento três dias depois. “Estava sentindo muito cansaço e tossindo muito. Fiz novos exames e minha oxigenação estava baixa Fiz tomografia e raio X, que mostrou que 50% do pulmão estava afetado. Não fui entubada, mas estava com medo.”

Sua maior preocupação era porque também tem diabete, o que fazia dela uma paciente com mais riscos de ter complicações. Ao longo da pandemia, tomou os cuidados para evitar a infecção, como usar máscara, higienizar as mãos e evitar aglomerações. “Sempre fui muito cuidadosa por causa da diabete. Saía com toda precaução, mas tive uma consulta médica com a endocrinologista e fui com a minha filha na cabeleireira. E mercado, que já ia sempre.”

Amanda conta que a doença não é leve. “Eu me senti muito fraca. Pensei que meu organismo ia reagir mais rápido. Tive muito calafrio da febre, foi muito mal-estar.” Na família, só ela foi infectada. “Meu marido fez o teste e deu negativo duas vezes. Meus pais, minha tia, que tenho bastante contato, não tiveram. Nem a minha filha de 9 anos. Está sendo difícil ficar sem vê-la. A gente conversa por vídeo, mas espero encontrá-la logo.”

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